A TORRE DE LEANDRO

Olhando ao longe para a torre encravada numa ilhota do Bósforo, que de forma harmoniosa coadjuvava o pôr do sol iminente na composição da paisagem, Leandro se lembrava da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro. Andava às margens do célebre estreito marítimo, em Istambul, enquanto o dia terminava para a multidão de turistas encantados com o que ele já vira dezenas de vezes. Parou quando ouviu um guia contar para um grupo de americanos da lenda de uma donzela trancada nessa torre pelo seu pai, o sultão, que temia a profecia segundo a qual a jovem deveria morrer aos dezoito anos com a picada de uma serpente. No entanto, a moça não pôde fugir do seu destino e foi vítima do veneno de uma cobra escondida num cesto de frutas trazido pelo próprio pai, justamente no seu décimo oitavo aniversário. "O destino é mesmo uma merda”, pensou e voltou a caminhar.

Era inverno e, embora estivesse frio naquele momento, o local estava cheio, para a sorte dos vendedores de chá que disputavam a atenção dos passantes. Ele estava decidido a pegar um táxi e voltar ao hotel, quando viu César. Alto, ele se destacava na multidão. Pensou em se virar e sair correndo, mas era tarde: "Leandro?", gritou ele. Silêncio. Corpo paralisado. Frio. Tensão. Ele repetiu mais alto, em tom de assombro, ao mesmo tempo em que se aproximava: "Leandro?" Ali estava César, o homem que o Leandro de dez anos atrás havia enganado. O Leandro da década passada não acreditava no amor como o de agora e não achava justo sair de um relacionamento sem alguma coisa que valesse a pena trocar por um bom dinheiro. Então, aquele Leandro roubara de César uma corrente de ouro e um Rolex. Foi embora sem se despedir e nunca mais se viram.

Agora César estava ali, mas o Leandro que ele conhecia não estava, e talvez não fosse possível que César entendesse que o Leandro de hoje não poderia pedir desculpas pelo de ontem.

César parou, fixou-lhe os olhos. Tinha tanto a dizer, tanto a perguntar, tantas coisas emergiam agora do lugar mais profundo do seu peito. Ainda havia raiva, mas também curiosidade. Mais curiosidade do que raiva. César sentiu uma vertigem repentina. Um tremor lhe passou das mãos para os braços e se espalhou para o corpo todo. Percebeu que ia cair. Caiu. A raiva venceu a curiosidade e seu corpo não aguentou. Fazia dez anos que não aguentava. Era assim desde o roubo da corrente de ouro, que tinha sido do seu pai. Com o Rolex não se importava. E teve o sumiço, a tentativa de encontrar uma resposta, os meses de psicanálise. Tudo em vão. Estava ali mais uma vez fenecendo ante o inesperado.

Ao abrir os olhos, não soube precisar quanto tempo ficara no chão. Olhou para cima e viu a noite escura. À sua direita, o Bósforo e a torre. Um homem perguntava em inglês se ele estava bem. Muitas pessoas ao redor. Procurou Leandro e não o encontrou. Começou a se levantar ainda meio zonzo. Instintivamente, levou as mãos ao bolso e não encontrou a carteira.

Dentro do táxi, Leandro pensava em César e tentava imaginar como teriam sido as coisas se, naquele tempo, ele já fosse o Leandro de agora. A torre iluminava o porto de Istambul e Leandro pensou que talvez César fosse a sua "cesta com frutas e serpente", mas ele tinha conseguido escapar. Ele sim merecia uma torre iluminando o Bósforo.

 

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