A VIRTUDE DA INDIFERENÇA


 Eram quatro e meia da manhã e Nenzinha acordou com o despertador. No momento em que abriu os olhos, veio-lhe à mente a irmã caçula. Perguntou-se se ela estaria bem, se estaria comendo direito e imaginou o quanto já teria crescido. Lembrou-se de como Lucimara a acordava afagando seus cabelos: “Acorda, mamãe! Fome!” Chamava-a de mamãe e ela não corrigia. Gostava. Lucimara fora seu bebê, sua boneca, sua única boneca. Nenzinha apertou bem os olhos e forçou-se a rememorar os detalhes do rosto dela; o sorriso atrevido com os últimos dentinhos apontando para nascer; o andar cada vez mais seguro, o olhar curioso e desafiador. Não queria esquecê-la, não podia, afinal, já mal se lembrava da mãe, cuja imagem aos poucos se esmaecia. O pai também se tornara uma figura distante, uma sombra debaixo do chapéu de palha. Por fim, havia os outros seis irmãos que ela não conseguia mais distinguir na memória. Formavam todos um rosto só, desconhecido e cada vez mais disforme. Apertou os olhos com mais força e um único filete de lágrima escorreu pelo rosto. Levantou-se. Estava exausta.

O dia anterior havia sido de faxina geral, o que incluía arear todas as panelas, lustrar cuidadosamente os copos da cristaleira – a maioria presente de casamento da patroa, que nunca os utilizava –, além de retirar, lavar e recolocar as cortinas espalhadas pelos cômodos. Nem de longe Nenzinha achava a casa pequena, mesmo porque o serviço doméstico parecia não ter fim, mas dona Selma vivia reclamando que o lugar era uma caixa de sapatos.

Sobretudo, dona Selma queixava-se de a construção do imóvel ter sido mal dimensionada e de não ter aproveitado o espaço do enorme terreno. Para desgosto da patroa, a casa era separada do portão de ferro sem pintura e do muro sem reboco por um enorme quintal forrado de brita. Bem aos fundos, a residência da família, pintada de amarelo há muitos anos, carecia de uma mão de tinta, como também sempre lembrava dona Selma. Da porta da sala se estendia uma pequena garagem coberta de telha eternit, e no meio do caminho entre a residência e o portão estava a casinha do cachorro, construída em alvenaria, aproveitando o muro do lado esquerdo do quintal.

Certa vez, Nenzinha ouviu a patroa comentar com o marido que ela estava muito besta e muito apaixonada quando aceitou que ele construísse a casa sem a sua supervisão. Confiara no esposo, afinal, à época do casamento, já era ele um experiente mestre de obras, mas nem nos seus piores pesadelos poderia imaginar que ele seria tão negligente. Não via a hora de colocar tudo no chão e mandar levantar outra do jeito que ela merecia. Seu Geraldo, irritado, respondeu:

“Não fala besteira, mulher. A gente não tinha dinheiro naquela época e continua sem ter.”

Dona Selma, com a veia saltando no pescoço e vermelha de ódio, rebateu aos gritos:

“Claro, você gastava o dinheiro todo com pinga! E adivinha? Continua gastando!”

E começaram a brigar. Brigavam muito. Brigavam sempre.

Nenzinha dormia num quartinho construído de improviso em um vão entre a parede da cozinha e o muro atrás da casa. Era um cômodo pequeno, com espaço suficiente apenas para uma cama e uma cômoda velha de quatro gavetas. Não havia um banheiro adjacente a seu quarto e isso deixava a patroa enraivecida, já que ela era obrigada a compartilhar com Nenzinha o único que existia na casa. Não demorou para que a menina entendesse que somente deveria usá-lo antes de dona Selma acordar e depois que ela fosse dormir; por isso, durante o dia, tomava a menor quantidade de água possível. Nenzinha levava essa regra muito a sério, mas, às vezes, acabava bebendo uns goles a mais e não conseguia segurar o xixi. Quando isso acontecia, precisava pedir à patroa que a deixasse usar o banheiro, o que era sempre muito constrangedor, porque a autorização invariavelmente era precedida ou seguida de muita gritaria:

“Nem pra arrumar um banheiro pra essa pretinha ordinária esse homem serviu. Mestre de obras uma ova! É um inútil, isso sim! Um imprestável!”

E dirigia-se à Nenzinha, os olhos arregalados, o cigarro entre os dedos que chacoalhavam para frente e para trás:

“Ouça bem porque eu não vou repetir: se eu entrar nesse banheiro e sentir cheiro de merda, você vai se ver comigo, tá ouvindo? Te faço limpar esse chão com a língua, sua pretinha fedorenta!”

A patroa nunca a chamava pelo nome. Era sempre o “pretinha” acompanhado de mais algum adjetivo. Seu Geraldo, pelo menos, a chamava de menina. Fazia tempo que não ouvia alguém dizer seu nome. O cachorro se chamava Bingo e todo mundo o chamava assim. Ele era preto, mais preto do que ela, e ninguém se referia à sua cor. Nenzinha elaborava vagamente essas ideias, mas não tinha tempo. Não tinha idade. Nenzinha tinha apenas doze anos.

Pé ante pé, para não acordar os patrões, ela se encaminhou até o banheiro. Enquanto tomava banho, pensou que a expressão “pretinha fedorenta” que a patroa tanto gostava de usar talvez tivesse a ver com o fato de que ela não podia se lavar com os sabonetes cheirosos de dona Selma, mas apenas com o sabão que ela mesma produzia a mando da patroa.

Depois de se vestir, dirigiu-se para a cozinha. O patrão saía às seis e a patroa tinha pedido que ela fizesse broa de fubá. Dona Selma ensinara-lhe a receita e ela agora a conhecia de cor, mas nunca soube se a guloseima era realmente boa, porque não podia provar esse tipo de coisa na casa. Pela cara que seu Geraldo fazia, Nenzinha supunha que tinha acertado o ponto, embora dona Selma sempre dissesse que estava ruim, que ela tinha colocado leite demais ou fubá de menos, ou errado a quantidade de açúcar. “Pretinha tonta”, ela dizia.

Durante os frequentes acessos de raiva de dona Selma contra Nenzinha, seu Geraldo não se metia. Calava-se. Na maioria das vezes, virava o rosto para o outro lado, mexia com a chave do carro entre os dedos ou pegava uma fruta no cesto e ficava arremessando para cima e para baixo. Se a coisa ficasse muita feia, ele saía de perto. Nenzinha achava que, mesmo assim, ele era uma pessoa muito boa. Dona Selma era má, não havia dúvidas. Seus pais também, porque haviam lhe entregado à patroa. Seu Geraldo, no entanto, era indiferente, o que a menina enxergava como uma qualidade. Por isso Nenzinha tinha pena quando a patroa o humilhava e ficava muito feliz quando ele batia nela.

Seu Geraldo passava mais tempo na rua do que em casa. Mesmo aos domingos sua ausência era a regra. E, quando estava presente, dona Selma e ele quase sempre discutiam, por causa de dinheiro ou de cachaça ou dos dois. Ela dizia que o marido vivia cheirando à pinga e era essa a razão pela qual não parava em casa e nunca tinha dinheiro para nada, ao que o seu Geraldo rebatia dizendo que eles não tinham dinheiro porque a esposa era uma maldita chaminé ambulante que gastava tudo em cigarro. Às vezes também brigavam porque dona Selma cismava que ele tinha uma amante. Essas eram as piores brigas, porque terminavam em pontapé e olho roxo. Dona Selma apanhava mais, mas seu Geraldo sempre saía com um vergão no rosto ou um galo na cabeça.

Às cinco e meia o café estava passado e a broa de milho na mesa. Nenzinha também preparou o suco de laranja com couve que a patroa gostava de tomar de manhã. E tinha pães também, três ou quatro. Ela tinha autorização para comer os pães que sobravam e sempre guardava um pouco num pratinho embaixo da cama. Fazia isso para não correr o risco de ficar sem ter o que comer na manhã seguinte, caso dona Selma se esquecesse de mandá-la à padaria.

Estava tudo muito bem-feito e cheiroso e Nenzinha sabia que não tinha errado o ponto de nada, embora isso não fosse garantia de que a patroa não implicaria com ela por qualquer motivo.

Dona Selma chegou primeiro, vestindo um roupão vermelho desbotado. Apoiou um dos cotovelos na mesa e acendeu um cigarro. A fumaça espessa formava uma neblina ao redor da sua cabeça. Seu Geraldo chegou depois.

“Não dá pra fumar lá fora?”, perguntou ele em tom de reprovação.

“Eu fumo onde eu quiser, ok?”

Nenzinha achou que fosse ter briga logo cedo, mas a discussão parou por aí. Fazia alguns dias que dona Selma tinha passado a fumar sentada à mesa, durante o café da manhã. Ela sempre tinha um cigarro aceso na mão e a menina ficava o dia todo recolhendo as bitucas e as cinzas que a patroa deixava espalhadas pela casa. Quatro maços por dia. No mínimo.

Nenzinha se pôs a servi-los. Cabeça baixa. Sempre em silêncio. Já estava de saída para que o casal pudesse comer sozinho, como a patroa gostava, quando viu seu Geraldo abrindo um sorriso ao experimentar a iguaria:

“Comeu disso aqui, Selma? A menina está ficando boa na cozinha! Você deveria aprender com ela!”, disse isso e gargalhou, comendo mais um pedaço farto.

Nenzinha sorriu. Provavelmente seu Geraldo queria apenas provocar a patroa, o que não impedia que a menina se sentisse envaidecida. Quando viu dona Selma fuzilando-a com o olhar, percebeu que estava em apuros. Saiu aflita para o quarto e ficou prestando atenção para ver se a patroa iniciaria uma discussão com seu Geraldo, mas como os dois permaneceram calados pelo resto da refeição, achou que havia se safado. Respirou tranquila. Pelo visto, a manhã transcorreria em paz. Pegou seu pão embaixo da cama, sentou-se e começou a comer.

Alguns minutos depois, enquanto ouvia o carro do patrão saindo pela garagem, ela sentiu a pele do rosto arder e o ouvido zunir com o barulho de um golpe abrupto. Dona Selma disse que a comida de Nenzinha era uma bosta, que ela era uma pretinha safada e que só não a colocaria para dormir no quintal naquela noite porque o tempo estava para chuva e ela não queria a menina doente. Antes de sair, deu uma última tragada no cigarro, tirou-o da boca e o apagou no ombro de Nenzinha, que gritou de dor e de susto. A patroa se virou, bateu a porta e desapareceu em direção à cozinha.

Apagar o cigarro nas suas costas, braços ou ombros não era novidade, mas chamá-la de “safada”? Foi a primeira vez que ouviu a patroa usar essa expressão para se referir a ela. Passada a dor inicial da queimadura e a surpresa com a mais recente forma de tratamento, Nenzinha ficou com medo. Meses antes, em maio, dona Selma a obrigou a dormir no quintal depois que ela queimou, por acidente, dois vestidos novos da patroa com o ferro de passar roupas.

“Ai de você se eu te encontro dormindo embaixo da cobertura da garagem! Nem sei o que faço! Nem sei! É pra dormir na sarjeta, me ouviu? Na sarjeta!”

O vento estava gelado e foi por Deus que ela não pegou um resfriado. Tentou ver se Bingo permitia-lhe ocupar a casinha onde ele dormia. Ela era pequena, bem magra, “uma pretinha ossuda”, como dizia Dona Selma, e era bem capaz que coubesse ali dentro, mas não teve jeito: o cachorro era tão raivoso quanto a dona. Decidiu se deitar atrás da casinha, onde encontrou um pano de chão velho todo mastigado pelo animal, que usou para cobrir os ombros e tentar se proteger do sereno da noite. As britas incomodavam e quase chegavam a perfurar sua pele fina, mas o frio era pior. Braços cruzados sobre o peito, os pés encolhidos, o tremor permanente. Ela tremia de frio, de medo, de raiva.

Nenzinha queria que dona Selma morresse, mas, ao mesmo tempo, sabia que se isso acontecesse, ela morreria de fome, porque os pais não iam querer saber dela – algo que a patroa sempre fazia questão de dizer. Seus sete irmãos mais novos moravam num barraco feito de restos de madeira à beira de uma estrada de terra, ao lado do acampamento dos ciganos. Nenzinha nem sabia como se chegava lá, mas era longe, bem longe, mais de uma hora dentro do carro. Ela ainda se lembrava de quando dona Selma e seu Geraldo foram buscá-la no ano anterior. Chovia bastante e há muitas noites estava impossível dormir dentro do barraco, que alagou. Dormiam todos embaixo da mangueira que crescera no limite do acampamento. Lucimara abraçava-se a ela. A pequena não desgrudava do seu pescoço durante aquelas noites de chuva, pois tinha medo do barulho da água tilintando nas folhas da mangueira no meio da escuridão. A copa da árvore não segurava toda a chuva, ainda que o pai tivesse improvisado uma cobertura de lona, usando alguns galhos fincados na terra, mas aquilo era melhor do que dormir atrás da casinha do cachorro, sozinha, sem Lucimara apertando o seu pescoço.

No dia em que os patrões chegaram, Nenzinha percebeu que a mãe estava feliz. Eles disseram que a menina poderia estudar, teria roupa para vestir e comida. O trabalho era de meio período e ela só teria mesmo que cuidar da casa, porque nem filho eles tinham. O pai, no entanto, ficou desconfiado: “Sorte de pobre é azar”, ele dizia, mas os patrões prometeram mandar uma cesta básica todo mês e vieram de carro, usavam roupa bonita, pareciam gente distinta. Moravam numa casa de alvenaria, daquelas da cidade, e a menina teria um quarto. Quem poderia desejar mais do que isso? Ali, nos últimos tempos, desde que o pai perdera a mão no canavial, a comida era farinha molhada em água suja e não havia o que se pudesse fazer. Deixou a menina ir.

Ninguém perguntou o que Nenzinha queria. Ela estava apavorada e chorou muito ao se despedir da mãe. A pequena Lucimara assistia a tudo muito atenta e, quando percebeu que ela estava de partida, grudou os braços nas pernas da irmã e começou a berrar: “Mamãe, mamãe, mamãe!”. Pela primeira vez o pai discordou: “ela é sua irmã, menina”, e puxou-a com força, levando-a carregada para dentro do barraco. Por muito tempo, Nenzinha não conseguiu dormir pensando nos olhos chorosos da criança, de quem sequer teve tempo de se despedir. Nunca mais viu os pais, nem teve notícias de Lucimara. Talvez a família não morasse mais no mesmo lugar. Já tinham se mudado tantas vezes e o barraco não duraria duas tempestades seguidas.

Nenzinha afastou os pensamentos e, buscando esquecer a nova queimadura no ombro, tomou coragem e seguiu para a cozinha a fim de cuidar da louça do café. Dona Selma estava sentada à mesa, pernas cruzadas, cigarro na boca, a neblina de fumaça ao redor do rosto. Ela seguia Nenzinha com o olhar, enquanto inalava o tabaco em tragadas lentas.

“Você é mesmo uma pretinha safada, né?”

Nenzinha congelou. Dona Selma prosseguiu elevando o tom da voz:

“Olha pra mim enquanto eu falo!”

A menina não sabia o que fazer, já que Dona Selma não gostava que ela apontasse para ela seus “olhos de pretinha intrometida”, mas a patroa continuando insistindo aos gritos:

“Você é surda? Olha pra mim!”

Ela olhou. As mãos apertavam um pano de prato à frente do corpo. Dona Selma continuou:

“Eu vi tudo, tá? Vi o jeito que você se engraçou pro lado do Geraldo. Não adianta fingir. Estava toda faceira se insinuando pra ele, né? E pensa que eu não percebi? Pensa que eu sou burra que nem você?”, falava e batia com a mão na mesa, os olhos vermelhos.

Nenzinha permaneceu em silêncio. Estática. Ela não entendia. Talvez fosse mesmo muito burra, como a patroa sempre gostava de dizer. Dona Selma continuou:

“E se eu raspasse esse seu cabelo, hein? Ia servir de palha de aço, pelo menos. Aí sim eu ia querer ver você se achando a última bolachinha do pacote!”

Nenzinha continuou paralisada, os olhos fixos no rosto da patroa submerso na fumaça de cigarro. Dona Selma retribuía o olhar, em silêncio, examinando-a de cima a baixo:

“Vai fazer seu serviço, vai. Depois eu penso no que eu faço com você”, disse-lhe, enfim, a patroa, chacoalhando no ar a mão que segurava o cigarro, em sinal de dispensa, ao mesmo tempo em que dissipava a fumaça ao seu redor.

Nenzinha imediatamente obedeceu. Enquanto lavava a louça e varria o chão, contudo, sentia os olhos inquisidores de dona Selma acompanhando-a pelos cantos da casa. Agora deitada no sofá, como sempre, a patroa observava a menina indo e vindo, enquanto defumava o ambiente ao redor.

A manhã avançou e, quando foi cuidar do almoço, Nenzinha já tinha trocado a roupa de cama dos patrões e passado as camisas e calças do patrão.

Descongelou o feijão e preparou a salada. Cozinhou arroz com folha de louro. Dona Selma fazia questão da folha de louro. Depois foi preparar o peixe: passou os filés na farinha de trigo, mergulhou-os nos ovos batidos e, por fim, cobriu-os de farinha de rosca completando o processo. Foi nesse momento que notou dona Selma apoiada no batente da porta, ainda vestindo o roupão vermelho desbotado:

“Fique sabendo que eu não nasci ontem, ok? Não sou nenhuma trouxa. Eu bem sei que aquele diabo do meu marido é chegado numa escurinha, mas daí a se interessar por uma pretinha feia que nem você? Ele ainda não tá louco!”

Dona Selma não esperava que ela dissesse alguma coisa e a menina não sabia mesmo o que responder. Começou a sentir as mãos trêmulas, o pescoço enrijecido, o estômago se afundando.

“Você pensa o quê, pretinha estúpida? Que ele vai me largar e ficar com você?”, disse isso e riu debochada, encurvando o corpo para frente.

Logo o patrão estaria em casa e talvez fosse o caso de esperá-lo para fritar o peixe. Não. Era melhor se adiantar. Colocou o óleo na panela, já posicionada no fogão. Bastante óleo. O peixe tinha que ser afundado na gordura, como havia lhe explicado a patroa certa vez. Acendeu a chama com um fósforo.

“Era só o que me faltava!”

O óleo esquentava. A patroa acendeu outro cigarro.

“Você é bem pilantra que eu sei. É capaz de arrumar barriga com meu marido só pra ver o que acontece. Conheço as da sua laia.”

Uma profusão de cheiros tomava conta da cozinha: cebola, alho, peixe, mas a patroa fumava e falava e fumava e logo já não se sentia mais o cheiro da comida.

“Sabe o que é pior? Eu tirei você da miséria!”

Nenzinha encostou a ponta de uma colher de madeira no óleo e ele começou a borbulhar com o contato. Era hora de colocar o peixe na panela, mas a menina, mais uma vez, não conseguia se mexer.

“Dei pra você uma casa, um lugar pra dormir, comida.”

Ela mantinha o olhar fixo na ponta da colher submersa na panela.

“Você era só uma pretinha magricela, esfomeada. Lembra do seu estado quando chegou aqui?”

Nenzinha não conseguia mais se lembrar do que tinha que fazer. Só enxergava as borbulhas. O cheiro do óleo quente se misturava com o do cigarro da patroa.

“E olha só como você me agradece! É uma pretinha ingrata mesmo.”

Nenzinha começou a sentir uma dormência na mão que segurava a colher. Gotas de suor brotavam da sua testa.

“O problema foi que você já veio pra cá cheia de marra, manhosa.”

O suor aumentava e o formigamento começou a se estender pelo braço.

“Eu falei pro Geraldo que não era bom trazer uma pretinha já criada, cheia de mania, pra dentro de casa. Ainda mais uma pretinha assim, vivida que nem você. Porque você é vivida, né? Eu sei que é.”

Ela podia ouvir o coração acelerado batendo, em descompasso.

“Mas ele achou que uma mais novinha não ia dar conta do serviço! Só que aquele inútil do meu marido não sabe de coisa alguma e eu sou uma idiota por estar sempre dando ouvidos a ele!”

Nenzinha sentiu um arrepio na espinha e o estômago embrulhar. Dona Selma se calou de súbito e se aproximou de Nenzinha. Quando a patroa voltou a falar, a menina sentiu o bafo de tabaco saindo de sua boca.

“Quer saber? Eu deveria era dar um fim em você e buscar aquela pretinha mais nova.”

Ela ouvia a patroa e sentia a respiração acelerar. O coração prestes a sair pela boca.

“Eu lembro dela no barraco, aquela menorzinha, que se agarrou nas suas pernas e não queria deixar você ir embora. Já deve tá crescidinha, né?”

Suas pernas tremiam. O rosto suava. O óleo queimava, mas era a fumaça do cigarro que formava uma penumbra sufocante.

“A gente ensina desde cedo e aí quem sabe ela cresce mais obediente!”

A fumaça parecia asfixiar Nenzinha e ela começava a sentir as vistas escurecendo.

“Vou ter muito trabalho, claro, mas como se diz: é investimento!”

Em questão de segundos, Nenzinha tirou a panela do fogo e jogou todo o óleo quente sobre a patroa. Mirou no rosto. Acertou. Dona Selma deu um único grito, num misto de dor, incredulidade e susto. Uma espécie de uivo. Tropeçou na cadeira e caiu no chão, as mãos cobrindo a face, o corpo inteiro envolto numa fumaça que não era mais a do cigarro.

Nenzinha saiu correndo para a sala e pegou a chave na mesinha de centro. A mesma chave que sempre estivera ali, desde o primeiro dia. Atravessou o grande quintal de britas com o cachorro no seu encalço, o rabo balançando. Abriu o portão e saiu em disparada. Bingo ficou parado na calçada olhando a menina virar a esquina.

Ela não fazia a menor ideia para onde estava indo. Sua única preocupação era não voltar, não olhar para trás. E foi assim que ela transitou por ruas e avenidas, virou à esquerda, à direita, seguiu reto, cruzou praças, passou embaixo e em cima de viadutos. Sempre correndo. Afoita. De repente, viu-se numa extensa avenida com duas pistas. Muitos veículos em movimento de ambos os lados. Havia no meio uma grande calçada para pedestres e ali as pessoas andavam apressadas, de um lado para o outro, indo e vindo numa movimentação frenética e pujante, até então desconhecida para ela. Parou de correr e se pôs a caminhar acompanhado o fluxo. Ela estava cansada, com fome e descalça. Seus chinelos tinham se arrebentado no caminho. Nenzinha observou ao redor os grandes edifícios, de onde entravam e saíam homens de terno e gravata e mulheres muito bem-vestidas.

Mais à frente, a calçada era cortada por uma rua igualmente cheia de carros, motos e ônibus em movimento. Os transeuntes pararam diante do bonequinho vermelho do semáforo que ela viu logo adiante. Nenzinha os imitou e também parou. Uma aglomeração de pessoas formou-se em questão de segundos. Ela olhava para as mulheres e homens no seu entorno, mas ninguém a olhava de volta. “Devem ser pessoas muito boas”, pensou.

Enquanto aguardava que toda aquela gente ao seu redor retomasse a caminhada, tentou se lembrar do pai, mas até a sombra debaixo do chapéu desaparecera. Da mãe agora sobravam apenas as mãos grossas mexendo a mistura de água suja com farinha. Mãos que se mexiam flutuando no ar. Mãos sem corpo. Mãos sem rosto. Tentou se lembrar de Lucimara e a única imagem que vinha à sua cabeça era a da irmãzinha correndo ao longe, de costas. Lucimara também fugia. Em algum lugar, ela fugia.

O sinal se abriu e Nenzinha acompanhou a multidão indiferente que atravessava a faixa de pedestres. Olhou para o céu nublado e concluiu: “Dona Selma estava certa. Vai chover hoje”.

 

Comentários

  1. O coração fica aquela coisa apertada, sem respirar, o tempo todo!

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  2. Você e seus textos maravilhosos. É muito agradável ler algo seu, anos depois, e contemplar a maturidade da sua escrita. 🥰

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    1. Quem escreveu me conhece. Pena que não tem como eu saber quem é! Mas muito obrigado!! :-)

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  3. Prazer em conhece-lo. Seu texto é impactante. Prendi a respiração e acelerei minha corrida junto à Nenzinha querendo e torcendo pela libertação de seu mundo cão. Parabéns, caro escritor., .

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    1. Muito obrigado! Fico tão feliz em ler algo assim que não sei nem explicar. Grande abraço.

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  4. Adorei! Parabéns pelo modo vivaz como vc compôs as personagens. Elas parecem gente, pessoas, carne e osso. E seu português é impecável, lindo de se ler. Queremos mais contos!

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