ADEUS, MENININHO


Carolina saiu com tanta pressa que mal teve tempo de ajeitar o cabelo; amarrou-o de qualquer jeito com um elástico velho que encontrou no chão do lado direito da cama e saiu correndo aflita pela porta da sala. O enterro já havia terminado e ela ansiava por encontrar a amiga. Quando atravessava o pequeno quintal, contudo, lembrou-se da máscara de pano. Não poderia sair sem ela se não quisesse que as pessoas a olhassem de olho torto. Voltou ao quarto, encaixou o elástico do acessório entre as orelhas, cobrindo a boca e o nariz, e saiu afobada. Abriu a taramela do velho portão de madeira que separava sua residência da calçada e se pôs a caminhar em disparada.

Andava rápido, a respiração ofegante. “Maldita máscara”, pensou. Dois quarteirões depois, viu-se na esquina com a avenida que rasgava a cidade ao meio. A avenida das Tulipas era uma invasão diária e permanente de carros, motos e caminhões, que, indo e vindo da capital e de outras localidades vizinhas, criavam uma convulsão de ruídos que infestavam aquela pequena cidade da região metropolitana da capital. Preparava-se para atravessá-la e seguir adiante, quando passou uma caminhoneta preta. Carolina não a viu. Estava distraída. Chegou a colocar o pé para fora da calçada, que quase foi esmagado pelo veículo em movimento. O motorista buzinou raivoso e desapareceu logo em seguida numa curva, deixando Carolina em sobressalto.

Enquanto ela se recuperava do susto e seguia seu caminho, lembrou-se de quando, há muitos anos, um menino de quatro ou cinco anos, pouco mais novo do que ela, soltou-se das mãos de sua mãe, correu para atravessar aquela mesma avenida sozinho e foi atropelado por um carro em alta velocidade. A história sensibilizou a comunidade, embora não tivesse sido a primeira vez que alguém se acidentava naquela via. Desde então, passaram a ser frequentes as advertências de mamãe: “Se eu encontrar você beirando a Tulipas, menina, vai dormir com o couro quente!”“Passa pra dentro, garota, já avisei que não é para atravessar aquela rua sozinha”.

Agora, aos trinta e cinco anos, ao atravessar a avenida tantas vezes proibida na infância, veio-lhe à cabeça a imagem do menino morto. Carolina estava saindo do armazém onde acabara de comprar, a pedido de mamãe, um saco de farinha e um pacote de sal. Foi tudo muito rápido, mas ela se recordou do barulho dos pneus; do corpo da criança quicando em cima do carro, como uma bola de pingue-pongue, e caindo do outro lado do veículo; do sangue que surgia repentina e rapidamente por baixo do garoto inerte, colorindo de vermelho escuro o asfalto e indo escorrer no bueiro do lado da calçada; do motorista saindo do veículo com as mãos na cabeça, desesperado; da mãe chorando e gritando; das pessoas se aglomerando ao redor do pequeno corpo sem vida. Sobretudo, lembrou-se da rigidez repentina que tomou conta do seu corpo de menina, de suas mãos se abrindo devagar e do saco de farinha e do pacote de sal se rompendo no chão. A sirene da ambulância, os gritos da mãe, o cheiro do sangue misturado ao do sal e da farinha: ela nunca se esqueceu. Também as crianças “viram estrelinha”, explicaria mamãe, tapando de maneira inútil os olhos da filha, quando a encontrou paralisada no meio da multidão.

Ela também se lembrou do velório. Mamãe não queria que ela fosse, provavelmente porque não conseguiria sustentar a história da estrelinha diante do pequeno caixão branco, mas não teve como evitar, já que a cidade inteira fez questão de velar a criança. Recordou-se do piso vermelho de cimento queimado muito antigo, dos dois sofás de pedra, da estante abarrotada de fotos, muitas delas do próprio garoto. Numa das paredes, em destaque, uma fotopintura numa moldura oval de uma mulher de blusa azul de mangas longas ao lado de um homem de terno preto e gravata vermelha. Ambos muito sérios, em posição solene, como se olhassem preocupados do passado para o futuro. Carolina não tinha medo do caixão branco lacrado, mas aquela foto a apavorou de tal maneira que ela não conseguiu controlar o choro e pediu para ir embora. Mamãe, anos mais tarde, confidenciou-lhe ter achado que as lágrimas foram por causa do trauma de ter presenciado o atropelamento e que ficou surpresa ao ver a filha se aproximar do caixão, tocá-lo com leveza e dizer aos prantos: “Adeus, menininho”. Disse ter ficado confusa e se perguntado onde Carolina havia aprendido essa palavra, “adeus”.

Tão imersa em seus pensamentos ela estava, que não percebeu quando passou diante do número 730. Quando voltou a si, já estava alguns metros adiante. Deu meia volta. A respiração ofegante não a deixava esquecer a máscara. Ao chegar no destino, viu-se em frente a uma velha casa cercada nas laterais por um muro prestes a desabar. À frente, um portão de madeira tão deteriorado pelo tempo quanto o da sua própria casa, que se estendia do solo até a altura dos seus ombros. Dali, ela conseguia ver o quintal de chão batido e, cinco ou seis metros à frente, o casebre de Celinha. Bateu palmas e gritou o nome da amiga, que quase na mesma hora apareceu na porta.

Celinha fora, na verdade, amiga de sua mãe. Trabalharam juntas por muitos anos numa mansão do bairro Alto. Mamãe era cozinheira e Celinha cuidava da limpeza. Naquele tempo, não existiam férias e quase não havia folga, então as duas, talvez por tanto conviverem, consideravam-se irmãs. Quando mamãe ficou doente, era Celinha quem levava todos os dias à noite na casa de Carolina uma sopa, um abraço, um sorriso, um cuidado. Ela estava lá, ao seu lado, na cabeceira da cama, quando mamãe morreu. Carolina se lembra bem de quando Celinha lhe chamou e pediu para que se despedisse. O corpo inerte, em coma, os olhos fechados para a vida. E foi Celinha quem cuidou dos trâmites, quem escolheu o caixão, quem permaneceu ao seu lado na noite inteira do velório.

Celinha abriu a porta e permaneceu parada, não avançou pelo quintal como sempre fazia quando Carolina chegava. As costas encurvadas, os cabelos brancos amarrados para trás, a pele negra que envelhecera de repente. Lá estava ela, a velha amiga, braços cruzados, o corpo apoiado no batente da porta, a tristeza estampada nos olhos brilhantes. Sem tirar a máscara que ela também usava, Celinha explicou que não podia receber Carolina no portão porque o moço da prefeitura mandou que ela ficasse em casa sem contato com ninguém, sozinha, por alguns dias. Carolina conhecia as recomendações. Todos conheciam. O marido de Celinha era o terceiro a morrer na cidade dessa doença, e na capital, logo ali do lado, mais de uma centena de vidas já tinham sido levadas.

A vontade de Carolina, no entanto, era empurrar o portão e correr para abraçá-la assim mesmo, dizer que ela poderia chorar, ouvi-la contar da vida difícil, porém amorosa que teve ao lado do esposo, da tristeza de ter tido apenas um filho, já falecido, e todas as outras histórias que Carolina já conhecia de cor.

O marido de Celinha adoecera dias antes e acabara de morrer no hospital. Não teve direito a visitas. Não houve velório e o enterro foi rápido, não durou nem cinco minutos, apenas a família presente, caixão fechado, sem abraços, sem consolo. Celinha lhe contou que o moço da prefeitura acompanharia a rotina dela por alguns dias, para ver se estava tudo bem com a sua saúde. Ela era idosa, tinha diabetes, pressão alta, mas estava sem sintomas. Tinham falado na televisão que havia um teste que se fazia para saber se a pessoa estava doente, queria fazê-lo, mas parece que o jeito era esperar, que testes só eram feitos em quem estava pelas últimas.

O marido de Celinha morreu pouco antes de Carolina sair para trabalhar. Fora avisada por uma vizinha, que também lhe disse que não haveria velório. Carolina era doméstica na capital e os patrões não saíam de casa, diziam estar cumprindo o isolamento. Criaram uma rotina de esterilização de todos os cantos da residência, objetos, embalagens, roupas e alimentos, o que deixava Carolina mais exausta do que o normal. Somado a isso, ainda tinha o deslocamento de ônibus que não durava menos do que duas horas para ir e outras duas horas para voltar.  Se ela tivesse ido trabalhar naquele dia, não conseguiria estar na casa da amiga quando o sepultamento terminasse. Avisou à patroa e ela ao menos fingiu alguma condescendência.

Prometeu à Celinha que todos os dias antes do amanhecer e de pegar a condução para a capital deixaria na sua porta um prato de comida. Disse também que sempre à noite, ao retornar, passaria para ver como ela estava e se precisaria de alguma coisa. Celinha colocou as duas mãos no peito em sinal de agradecimento e de longe Carolina conseguiu ver que a amiga chorava. “Vai passar”, ela disse. “Se Deus quiser”, respondeu Celinha.

E, acenando com as mãos, Carolina se despediu. Disse “até logo”. Ela gostava de dizer “até logo”. Sempre dizia. Em sua cabeça, “adeus” era uma palavra que deveria ser reservada aos mortos.

Comentários

  1. Que maestria na escrita com tanto detalhes que parece uma poesia nos detalhes!

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    1. Muito obrigado, Renata! Sua opinião é fundamental para mim!

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  2. Vanessa de Resende Cunha15 de junho de 2020 16:04

    "Recorda-se do piso vermelho de cimento queimado, muito antigo, dos dois sofás de pedra, da estante abarrotada de fotos, sendo uma delas a do próprio garoto. Numa das paredes, em destaque, uma fotopintura numa moldura oval, na qual era possível ver, da cintura para cima, a imagem de uma mulher ao lado de um homem. A mulher levemente à frente, de blusa azul de mangas longas; o homem de terno preto e gravata vermelha. Ambos muito sérios, em posição solene, como se olhassem preocupados do passado para o futuro."

    Eu enxerguei!

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