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A VIRTUDE DA INDIFERENÇA

Eram quatro e meia da manhã e Nenzinha acordou com o despertador. No momento em que abriu os olhos, veio-lhe à mente a irmã caçula. Perguntou-se se ela estaria bem, se estaria comendo direito e imaginou o quanto já teria crescido. Lembrou-se de como Lucimara a acordava afagando seus cabelos: “Acorda, mamãe! Fome!” Chamava-a de mamãe e ela não corrigia. Gostava. Lucimara fora seu bebê, sua boneca, sua única boneca. Nenzinha apertou bem os olhos e forçou-se a rememorar os detalhes do rosto dela; o sorriso atrevido com os últimos dentinhos apontando para nascer; o andar cada vez mais seguro, o olhar curioso e desafiador. Não queria esquecê-la, não podia, afinal, já mal se lembrava da mãe, cuja imagem aos poucos se esmaecia. O pai também se tornara uma figura distante, uma sombra debaixo do chapéu de palha. Por fim, havia os outros seis irmãos que ela não conseguia mais distinguir na memória. Formavam todos um rosto só, desconhecido e cada vez mais disforme. Apertou os olhos com mais for…

ADEUS, MENININHO

Carolina saiu com tanta pressa que mal teve tempo de ajeitar o cabelo; amarrou-o de qualquer jeito com um elástico velho que encontrou no chão do lado direito da cama e saiu correndo aflita pela porta da sala. O enterro já havia terminado e ela ansiava por encontrar a amiga. Quando atravessava o pequeno quintal, contudo, lembrou-se da máscara de pano. Não poderia sair sem ela se não quisesse que as pessoas a olhassem de olho torto. Voltou ao quarto, encaixou o elástico do acessório entre as orelhas, cobrindo a boca e o nariz, e saiu afobada. Abriu a taramela do velho portão de madeira que separava sua residência da calçada e se pôs a caminhar em disparada. Andava rápido, a respiração ofegante. “Maldita máscara”, pensou. Dois quarteirões depois, viu-se na esquina com a avenida que rasgava a cidade ao meio. A avenida das Tulipas era uma invasão diária e permanente de carros, motos e caminhões, que, indo e vindo da capital e de outras localidades vizinhas, criavam uma convulsão de ruídos …

A TORRE DE LEANDRO

Olhando ao longe para a torre encravada numa ilhota do Bósforo, que de forma harmoniosa coadjuvava o pôr do sol iminente na composição da paisagem, Leandro se lembrava da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro. Andava às margens do célebre estreito marítimo, em Istambul, enquanto o dia terminava para a multidão de turistas encantados com o que ele já vira dezenas de vezes. Parou quando ouviu um guia contar para um grupo de americanos da lenda de uma donzela trancada nessa torre pelo seu pai, o sultão, que temia a profecia segundo a qual a jovem deveria morrer aos dezoito anos com a picada de uma serpente. No entanto, a moça não pôde fugir do seu destino e foi vítima do veneno de uma cobra escondida num cesto de frutas trazido pelo próprio pai, justamente no seu décimo oitavo aniversário. "O destino é mesmo uma merda”, pensou e voltou a caminhar.Era inverno e, embora estivesse frio naquele momento, o local estava cheio, para a sorte dos vendedores de chá que disputavam a atenção dos passa…